Um relatório técnico do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) colocou em alerta a situação ambiental do Rio Pardo , em Ribas do Rio Pardo, município inserido no Vale da Celulose. O estudo aponta que o reservatório da Usina Hidrelétrica Salto do Mimoso atingiu condição crítica de hipereutrofização , processo provocado pelo acúmulo excessivo de nutrientes na água.
De acordo com o documento, o problema não possui uma única origem. As análises identificaram uma combinação envolvendo efluentes industriais, esgoto sanitário urbano, degradação do solo em propriedades rurais, saneamento inadequado em loteamentos e ranchos , além das próprias características do represamento da água na região da hidrelétrica.
Entre os pontos destacados pelo relatório está a operação da unidade de celulose da Suzano , instalada em Ribas do Rio Pardo. Segundo o Imasul, os efluentes lançados pela indústria apresentaram concentrações de fósforo que contribuíram significativamente para elevar o grau de trofia do ambiente e, consequentemente, favorecer a expansão das macrófitas aquáticas , plantas que passaram a ocupar grandes áreas do reservatório.
As medições citadas no relatório apontam uma diferença expressiva nos níveis de fósforo entre pontos localizados antes e depois do lançamento dos efluentes industriais. A alteração na disponibilidade de nutrientes contribuiu para a mudança das condições ambientais do reservatório e para o crescimento acelerado da vegetação aquática.
Imasul aplica multa e determina adequações
Diante dos resultados, o Imasul lavrou auto de infração no valor consolidado de R$ 500 mil contra a Suzano . O órgão ambiental também determinou a readequação do sistema de tratamento e a redução das cargas de fósforo e nitrogênio, de forma a atender às condições estabelecidas nas outorgas hídricas.
As providências, entretanto, não ficaram restritas à indústria de celulose.
A administração da usina hidrelétrica foi notificada para elaborar e executar um plano contínuo de limpeza e remoção das plantas aquáticas. Já a Estação de Tratamento de Esgoto de Ribas do Rio Pardo recebeu determinações para corrigir falhas operacionais, eliminar desvios irregulares de efluente bruto e realizar adequações estruturais.
Para propriedades rurais e loteamentos, o relatório indica a necessidade de práticas de conservação do solo, controle de processos erosivos e substituição de fossas rudimentares por sistemas adequados de saneamento.
Outro fator apontado é o próprio represamento do Rio Pardo. A redução da velocidade da água favorece a retenção de nutrientes e matéria orgânica, criando condições para a proliferação das macrófitas. O avanço da vegetação chegou a interferir também na operação da hidrelétrica, com risco de obstrução das turbinas.
Suzano afirma cumprir legislação ambiental
Em posicionamento divulgado à imprensa, a Suzano afirmou atuar em estrita observância à legislação ambiental e às condições estabelecidas em suas licenças . Segundo a companhia, a unidade de Ribas do Rio Pardo realiza monitoramento contínuo dos processos e mantém diálogo com os órgãos responsáveis.
A empresa também destacou que o próprio relatório do Imasul reconhece a existência de múltiplos fatores na bacia hidrográfica relacionados às condições encontradas no reservatório. A companhia informou ainda que apresentou os esclarecimentos técnicos solicitados pelo órgão ambiental e reiterou seu compromisso com transparência, cooperação institucional e boas práticas de gestão ambiental.
Caso acende alerta no Vale da Celulose
A situação do Rio Pardo ganha dimensão especial diante do crescimento do setor de celulose em Mato Grosso do Sul . Ribas do Rio Pardo tornou-se um dos principais polos dessa expansão industrial e o episódio reforça a importância de que desenvolvimento econômico, aumento da produção e geração de empregos avancem acompanhados de controle ambiental, saneamento e monitoramento permanente dos recursos hídricos.
O próprio Imasul recomendou maior rigor sobre os lançamentos industriais e urbanos, redução da poluição difusa, melhoria das práticas agropecuárias, gestão ativa do reservatório e campanhas independentes e sistemáticas de monitoramento da qualidade da água.
Mais do que atribuir o cenário a uma única fonte, o relatório mostra que a recuperação do Rio Pardo dependerá de ações coordenadas envolvendo indústria, poder público, saneamento, setor rural e responsáveis pela operação do reservatório .
Em uma região onde a água possui papel estratégico para comunidades, atividades produtivas, geração de energia e para a própria indústria de base florestal, o episódio amplia o debate sobre como conciliar a expansão do Vale da Celulose com a proteção dos rios e demais recursos naturais de Mato Grosso do Sul.
Fonte: Informações IMASUL
