A indústria brasileira de celulose atravessa 2026 em um cenário de contrastes. O país mantém uma das bases produtivas mais competitivas do mundo e grandes projetos continuam avançando, mas as empresas precisam lidar com um mercado internacional mais desafiador, marcado por pressão sobre preços, custos elevados, câmbio e mudanças importantes no comportamento da China.
Dados divulgados pela Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) mostram que as exportações do setor brasileiro de árvores cultivadas movimentaram US$ 7,5 bilhões no primeiro semestre de 2026, retração de 5,9% na comparação com igual período de 2025.
A celulose continua sendo o principal produto dessa cadeia. Entre janeiro e junho, a produção brasileira ficou praticamente estável em 13,9 milhões de toneladas. As exportações, entretanto, somaram 9,4 milhões de toneladas, queda de 10,5%. Em receita, as vendas externas de celulose alcançaram US$ 5,2 bilhões, redução de 4%.
China está no centro das atenções
Um dos maiores desafios está justamente no principal mercado mundial consumidor de celulose.
Análises apresentadas durante a Fastmarkets Forest Products Latin America 2026 apontaram uma mudança estrutural na China, com ampliação da capacidade integrada de produção de celulose. A avaliação apresentada no evento é de que as importações chinesas de celulose de mercado podem enfrentar dificuldade para crescer até 2030.
Isso aumenta a importância da diversificação de mercados e da competitividade dos produtores brasileiros.
O Rabobank avalia que os preços da celulose permanecem pressionados no terceiro trimestre de 2026. Por outro lado, destaca que a fibra curta brasileira mantém importante vantagem de custos sobre produtores do Hemisfério Norte.
Empresas reforçam controle de custos
Nesse ambiente, eficiência operacional, geração de caixa e redução do endividamento ganharam ainda mais importância.
A Suzano encerrou o segundo trimestre com vendas de 3,3 milhões de toneladas de celulose e papéis, receita líquida de R$ 11,6 bilhões e EBITDA ajustado de R$ 4,7 bilhões. A companhia destacou que o período foi marcado por pressões cambiais e aumento dos custos de insumos relacionados, entre outros fatores, à alta do petróleo.
Na Klabin, o EBITDA ajustado alcançou R$ 2 bilhões no segundo trimestre, com margem de 38%. A companhia também apontou impactos relacionados à valorização do real, pressões inflacionárias e ao cenário geopolítico internacional.
O cenário ajuda a explicar por que grandes produtores estão dando prioridade à disciplina financeira, redução da alavancagem, eficiência e captura de resultados dos investimentos realizados, segundo análise do Rabobank.
Mato Grosso do Sul continua recebendo investimentos
Apesar das incertezas de curto prazo, a expansão industrial brasileira continua.
Mato Grosso do Sul ocupa posição central nesse movimento. O Projeto Sucuriú, da Arauco, em Inocência, está entre os grandes empreendimentos em implantação, enquanto o Estado também trabalha para viabilizar novos investimentos industriais, incluindo o projeto da Bracell em Bataguassu.
Esse cenário mostra uma indústria vivendo dois movimentos simultâneos: de um lado, empresas mais cautelosas diante da volatilidade internacional; de outro, investimentos de longo prazo sustentados pela produtividade das florestas brasileiras e pela competitividade da fibra de eucalipto.
Para as empresas, o desafio passa a ser crescer mantendo custos controlados, produtividade florestal elevada, logística eficiente e capacidade de atender um mercado global que está mudando rapidamente.
Além disso, fatores climáticos entram no radar. O Rabobank alerta que um El Niño forte pode afetar a produtividade florestal no fim de 2026, acrescentando mais uma variável às decisões das empresas.
Mesmo diante dessas pressões, a escala produtiva, a produtividade das florestas e a vantagem de custos continuam colocando o Brasil em posição relevante na disputa pelo mercado mundial de celulose.
