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Líderes de papel e celulose cultivam inovação para ganhar eficiência

Ganho de produtividade e adaptação às novas condições climáticas estão no cerne das inovações do setor de papel e celulose.

Valor Economico - Redação Vale Celulose 
21/08/26 às 08h58

A redução de cerca de 180 milímetros no índice anual de chuvas ao longo dos últimos anos, com perda de até 7 metros cúbicos (m3) de madeira por hectare a cada 12 meses, é um dos desafios no foco da inovação da Suzano.

A ameaça é enfrentada com avanços genéticos, manejo de precisão, monitoramento e capacidade de antecipar decisões: com cerca de 25 mil clones e 133 bancos genéticos, genômica, fenotipagem, cruzamento acelerado em ambientes controlados (speed breeding), modelos ecofisiológicos e aprendizado de máquina (ML) ajudam a acelerar o desenvolvimento e a recomendar material genético e manejo mais adequado para cada combinação de clima, solo e relevo, em busca de produtividade e resiliência.

“O objetivo é ganhar de 7% a 13% na produtividade até 2034”, diz Carlos Aníbal, vice-presidente-executivo para novos negócios na Europa, FuturaGene e suprimentos da companhia — cada aumento de cerca de 3% vale perto de R$ 1 bilhão. A meta é apoiada por iniciativas como gestão de risco de pragas em larga escala nos 1,7 milhão de hectares plantados para fins industriais, que identificou pontos de concentração (hotspots) e gatilhos climáticos favoráveis a surtos de cada uma, bem como inimigos naturais, criados para controle biológico.

O exemplo reflete o papel da inovação para ampliar competitividade, diferenciação e resultados, preparando o negócio para transformações que alteram a cadeia do setor. “A inovação deixou de ser resposta defensiva. Hoje é capacidade para manter relevância, antecipar necessidades e construir vantagens competitivas”, detalha Aníbal.

A empresa destina cerca de 1% de sua receita à inovação e busca equilibrar projetos estruturantes de longo prazo com iniciativas de retorno mais rápido — a redução de custos resultante de inovações cresceu nos últimos três anos. Cerca de 60% do orçamento é destinado à área florestal, com inovações como a plataforma Manda Chuva, ecossistema interno de previsão de tempo e clima que integra modelos globais e regionais para traduzir cenários de médio e longo prazos em decisões operacionais, e Anomal-IA, que combina inteligência artificial (IA) e imagens de satélite para acompanhar toda a base, identificar irregularidades como incêndios ou geadas e estimar o volume de madeira já aos 12 meses.

Outros 20% a 25% dos investimentos são direcionados à frente fiber-to-fiber, para desenvolver aplicações de celulose e promover a substituição de fibras longas por fibras curtas de eucalipto. Na frente de bens de consumo, um dos destaques é o papel higiênico Neve Toque de Ondas, primeiro papel-base texturizado produzido integralmente com fibra curta de eucalipto. Na indústria, a prova de conceito de gêmeo digital aplicada a forno de cal reduziu em 15,8% o consumo de gás e em 56,6% o carbonato residual na cal, resultando em mais de 540 dias sem obstrução do queimador, antes registrada a cada 20 dias. A inovação também se apoia em parcerias. Exemplos recentes envolvem as startups EasyTelling, que analisa publicações e informações técnicas para apoiar pesquisas, e Marvin Blue, de inteligência geoespacial, além do Instituto Senai de Inovação.

“A velocidade das mudanças hoje exige mais das empresas em relação à inovação, com cultura disseminada para todos estarem aptos a capturar sinais fracos capazes de gerar oportunidades de negócios”, avalia o CEO da Irani, Odivan Cargnin. A empresa se apoia em capacitação, com reforço de áreas como pesquisa e desenvolvimento (P&D) e fábricas de embalagem e papel, e inovação aberta, conectada a startups por meio do Irani Labs.

Um dos destaques da estratégia em curso é a sensorização das fábricas para capturar dados dos equipamentos. A iniciativa compõe o pacote de investimentos Gaia, com R$ 1,8 bilhão, definido em 2020 para expansão de capacidade e otimização de plantas. O próximo ciclo de investimentos, Neos, prevê mais plantas de embalagem, bem como expansão da capacidade de conversão e uso de papel reciclado, com fortes características de inovação.

Outros resultados incluem desde desenvolvimento de papel com o cliente — como os saquinhos para coletar cápsulas do café Nespresso — até a mudança de layout da planta de reciclagem de plástico, promovida em 2023, que permitiu maior absorção do plástico retirado do equipamento que separa o plástico de aparas (desagregador). Neste ano, o contexto de inovação foi reforçado com capacitação de diretores e gerentes em IA — hoje o CEO é um dos usuários do Brain, gêmeo digital pessoal que apoia atividades relacionadas a planejamento estratégico. “A IA também será aliada no desenvolvimento de papéis e embalagens”, adianta Cargnin.

Na CMPC, a criação de diretoria específica há quatro anos ampliou a equipe dedicada à área de 17 para uma centena de pessoas, entre funcionários e terceiros — uma delas fica na China, outras duas na Europa. Um dos projetos que começam a gerar resultados neste ano é a maior integração entre floresta e indústria, com informações sobre o tipo de madeira destinado à produção a partir do mapeamento do que será colhido ao longo do ano, o que ajuda a preparar a fábrica e alcançar maior precisão nas formulações. “O planejamento de 2027 já é o terceiro”, conta a diretora de inovação, Bibiana Rubini.

A nova estratégia da CMPC também mirou ajuste em inovação aberta. Depois de investimentos de venture capital (VC) em startups mais disruptivas, mirando novos negócios a partir da biomassa, agora o foco é o core business, com desafios propostos em áreas como predição e redução de falhas, de olho em soluções já prontas de outros mercados. Os próximos passos incluem projetos como o desenvolvimento de uma “vacina” para plantas.

Na Smurfit Westrock, o centro de experiência da marca em São Paulo (SP), antes praticamente uma exposição de soluções, foi transformado em hub de inovação que inclui área de cocriação com clientes e parceiros, apoiado por laboratório com equipamentos para simular condições como queda de embalagem dentro de um caminhão. “Com o novo espaço e metodologia design to market, o prazo para a entrega de um projeto completo caiu de três meses para 15 dias”, conta Rafaella Rufino, diretora de inovação.

Premiações internas destacam projetos, como a substituição de embalagens de frutas de EPS por papelão ondulado — como é entregue desmontada, o número de caminhões envolvidos no transporte da embalagem caiu de 52 para três — e adaptação de máquina de um cliente para uso de energia solar. Além disso, metodologias ágeis e padronização do processo de desenvolvimento ajudaram a aumentar em 30% as conversões das inovações em negócios, com cerca de 60% delas adquiridas pelo cliente após o processo de consultoria.

Já na Cenibra a inovação é um elemento transversal incorporado à estratégia de longo prazo. Um programa de melhoria contínua e inovação seleciona anualmente uma centena de problemas a serem tratados pelas equipes, com finalistas selecionados para ir adiante. Surgem daí soluções como uma maneira de descascar a parte de baixo de árvores queimadas para reaproveitamento da madeira para celulose, proposta por um trabalhador florestal. Como os incêndios estão entre as grandes ameaças, a empresa mantém sistema com torres e câmeras com alcance de até 60 quilômetros para monitorar as florestas em tempo real.

Os destaques da inovação em 2025 incluem a ampliação da capacidade de experimentação, com casa de vegetação exclusiva para mudas da pesquisa florestal, e modernização de rotinas analíticas na pesquisa industrial. A Cenibra também é pioneira na implementação de sistema de certificação de origem da celulose por georreferenciamento, o SAP Green Token, e firmou parceria com a Vale para a criação da Bionow, voltada a biocarbono de alta densidade a partir de biomassa certificada, alternativa ao carvão mineral e ao gás natural. “Teoricamente, qualquer produto de base petróleo pode ser feito de celulose”, destaca o diretor-presidente da Cenibra, Júlio Ribeiro.

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