A mesma madeira que alimenta a indústria brasileira de papel também dá origem a uma das fibras têxteis especiais mais sustentáveis do mercado: o lyocell, produzido a partir da polpa solúvel extraída de árvores como o eucalipto. A matéria-prima, reconhecida pela maciez e pelo baixo impacto ambiental, ganha espaço no Brasil impulsionada por marcas de moda e por investimentos bilionários de gigantes da celulose.
Além da origem florestal, o processo de fabricação é apontado como um diferencial em relação a fibras sintéticas derivadas de fósseis. O insumo passa por dissolução em NMMO (N-metilmorfolina-N-óxido), solvente orgânico reutilizado em quase 100% do ciclo industrial. O resultado é uma fibra biodegradável e compostável, capaz de se decompor em poucos meses em condições adequadas.
Nos últimos anos, o mercado brasileiro de lyocell ganhou relevância. Um dos movimentos mais marcantes ocorreu em 2024, quando a Suzano investiu € 230 milhões (cerca de R$ 1,4 bilhão) para adquirir 15% do Grupo Lenzing, líder global na produção de celulose para o setor têxtil e detentor da marca Tencel.
Segundo Carlos Aníbal, vice-presidente executivo de Novos Negócios na Europa da Suzano, a operação fortalece a estratégia de avançar no downstream . Com a participação minoritária, ele assumiu a vice-presidência do conselho de administração da Lenzing, na Áustria.
“Esse mercado abre a oportunidade de avançarmos no downstream, de construirmos uma posição competitiva em um segmento no qual entendemos que há um potencial muito grande de crescimento, devido à busca por fibras mais sustentáveis e que trazem ao consumidor um conforto muito maior”, afirma. “Existe uma tendência crescente dessa combinação de conforto e sustentabilidade, e entendemos que atuar nessa cadeia é uma opção de criação de valor”, complementa.
A Suzano ainda poderá ampliar sua fatia e tornar-se acionista majoritária até o fim de 2028. Aníbal, porém, evita antecipar decisões. “É um negócio diferente sobre o qual estamos buscando entendimento para tomarmos uma decisão ao longo do tempo”, acrescenta.
Outra brasileira que se movimentou nesse mercado é a Dexco, que em 2018 firmou parceria com a Lenzing para criar a joint venture LD Celulose, em Minas Gerais, com investimento de US$ 1,3 bilhão (cerca de R$ 7 bilhões). A operação responde por mais de 75% das receitas globais de fibras especiais da Lenzing em 2024.
Para Henrique Haddad, vice-presidente da Divisão Madeira da Dexco, o acordo potencializou o uso de um maciço florestal próprio de quase 54 mil hectares: “Nós achamos bastante interessante o negócio por (resultar em) um produto diferenciado e com uma utilização mais próxima do consumidor, no sentido de estar fazendo uma mudança importante no uso mais sustentável de fibras e tecidos”.
Silvio Costa, presidente da LD Celulose, destaca que foram dez anos de estudos até que o Brasil emergisse como a melhor opção industrial: “A Lenzing continua com o tamanho dela em termos de produção de fibras têxteis, na ordem de 1,1 milhão de toneladas por ano. Com a entrada da LD Celulose, ela se tornou autossuficiente ou menos dependente do mercado, com fibra de celulose solúvel produzida a partir de eucalipto no Brasil, com uma vantagem competitiva super importante”.
Concorrente direta, a Bracell também opera intensamente nesse segmento, com capacidade de 2 milhões de toneladas anuais de celulose solúvel nas plantas da Bahia e de São Paulo. Segundo a empresa, “em 2024, 53,5% da celulose produzida pela Bracell na Bahia teve como destino a Ásia, para a fabricação de fibras de viscose e lyocell”.
